A Greve dos Patrões: Aqueles que Sustentam o Mundo em suas Costas

De todos os milhares de livros que eu li ao longo da minha vida, que está em seu octogésimo ano, o romance Atlas Shrugged [1] (A Revolta de Atlas [2]), de Ayn Rand (1905-1982) [3] , publicado em 1957, foi, para mim, o mais importante. Ganha fácil de outros livros de ficção, bem como de livros de não-ficção nas áreas de história, filosofia, teologia, direito, educação, tecnologia, que são as áreas em que mais li ao longo da minha vida. Comparativamente falando, li muito pouco, quase nada, na área chamada científica – e não pretendo mudar agora. Atlas Shrugged ganha, em importância, na minha vida, até mesmo da Bíblia, que foi o livro no qual, ou com o qual, eu aprendi a ler, mais ou menos sozinho, em Maringá, por volta dos cinco anos. (Só entrei na escola quando já tinha oito anos e meio, em Fevereiro de 1952, em Santo André). Atlas Shrugged, que eu li pela primeira vez em 1973, quando tinha trinta anos e morava em Pomona [4], na California, me ajudou a colocar ordem nas minhas ideias, me ajudou a formular uma visão coerente de mundo, que mantenho até hoje, quase cinquenta anos depois, a despeito de pequenos ajustes, aqui e ali, em aspectos que são acessórios, não essenciais.

O história do livro, escrito por uma judia russa, naturalizada americana, se passa nos Estados Unidos numa época que, nos anos 50, quando foi escrito, se pretendia claramente futura – algo, talvez, perto dos dias de hoje. A data precisa não é fornecida por Rand (cujo nome de nascença era Alyssa Zinovievna Rosenbaum). A Europa, no livro, já é totalmente socialista (composta de várias “Republiquetas Populares” disso ou daquilo – da Inglaterra, da França, da Alemanha) e os Estados Unidos, único país que não sucumbiu totalmente ao socialismo, permanecendo liberal e capitalista, enfrentam uma onda socializante quase irresistível, em todas as áreas, desde a econômica até a artística, passando por tudo que está no meio. Quase não há referência à América Latina no livro, exceto ao Chile (um dos principais personagens da história, Francisco d’Anconia, nasceu e foi criado no Chile, embora tenha feito curso superior nos EUA) e ao México (os dois países socialistas quando a história do livro acontece). A história se passa basicamente nos Estados Unidos. Nova York é a cidade em que boa parte da ação acontece, mas o Estado do Colorado tem um papel importante, como o local em que um novo país é gestado. A cidade de Cleveland, no Estado de Ohio, tem um papel interessante por ser a sede daquela que foi o último centro de liberalismo no país: a Patrick Henry University. O nome da universidade é significativo. Patrick Henry foi um dos revolucionários americanos que teve papel importante no processo de independência dos EUA da Inglaterra. É dele o famoso discurso, proferido em Virginia, em 23 de Março de 1775, que termina com esta frase que, para mim, é de arrepiar:

“Is life so dear, or peace so sweet, as to be purchased at the price of chains and slavery? Forbid it, Almighty God! I know not what course others may take; but as for me, give me liberty or give me death!” (Será a vida tão preciosa, e a paz tão doce, que, para preservá-las, vale a pena pagar o preço da opressão e da escravidão? Que disso nos poupe o Deus Todo-poderoso! Não sei que curso os senhores pretendem seguir; mas, quanto a mim, ou eu tenho liberdade, ou, então, prefiro a morte!). [5]

Transcrevo a seguir um curtíssimo artigo (espaço limitado pelo jornal) que escrevi, em Outubro de 2010, doze anos atrás, sobre A Revolta de Atlas, a pedido da Folha de S. Paulo – que, então, ainda era um jornal, não um pasquim vagabundo… O artigo saiu na seção na seção “Cifras & Letras”, na subseção “Crítica – Liberalismo”:

“Ayn Rand ataca socialismo mostrando o que acontece quando os patrões fazem greve

Este livro formou economistas como Alan Greenspan, ex-presidente do Fed [Federal Reserve Bank (o Banco Central Americano)]

Por EDUARDO CHAVES

Especial para a Folha

A REVOLTA DE ATLAS

A Bíblia do pensamento liberal na segunda metade do século vinte não foi um livro de economia ou de filosofia política: foi um romance: Atlas Shrugged, a clássica defesa da liberdade, do individualismo e do capitalismo escrita por Ayn Rand (1905-81), romancista e filósofa russo-americana. O livro acaba de ganhar nova edição em português, com um título novo: A Revolta de Atlas. A edição anterior, publicada em 1987, e há muito esgotada, tinha o título de Quem é John Galt? A tradução é a mesma, mas foi editada e revisada pela editora Sextante.

Com 1.232 páginas na presente edição, o livro tem um enredo extremamente complexo e bem elaborado, que não é possível exatamente resumir aqui. No entanto, uma descrição, ainda que breve, do tema escolhido por Rand dá ideia da dimensão da obra.

O título provisório do livro, durante os anos em que foi redigido, era The Strike (A Greve). A tradução para o Francês manteve esse título: La Grève. Originalmente publicada em 1957, a história se passa nos Estados Unidos, numa indefinida época futura em que o país, seguindo o exemplo de países europeus e latino-americanos, caminha para o socialismo e resolve regular, e assim controlar, e virtualmente confiscar, trazendo-a para as mãos do estado, a sua economia.

A GREVE DOS PATRÕES

O livro descreve o que acontece quando aqueles que (como Atlas) sustentam o mundo nas costas resolvem fazer greve, sacudindo o mundo dos ombros e deixando que ele literalmente se dane. “Vamos ver o que acontece ao mundo quando quem faz greve contra quem” é frase (retirada do livro) que resume o tema da obra.

Entrando em greve, os empresários americanos simplesmente desistem de lutar e começam a desaparecer de cena, de um dia para o outro, abandonando suas empresas nas mãos de reguladores e controladores estatais e dos sindicatos dos trabalhadores. Grandes filósofos, cientistas e artistas também desaparecem, simplesmente abandonando, da noite para o dia, seus empreendimentos.

O lado otimista da história é que o Estado pode até confiscar empresas e outros empreendimentos, mas não consegue obrigar empresários e outros empreendedores a lhe arrendar suas mentes, sua criatividade, sua competência, seu trabalho. O Estado e seus apaniguados, os trabalhadores, através dos seus sindicatos,, portanto, que fiquem com os empreendimentos, decidem os proprietários e patrões na história. Mas eles não colocam mais suas mentes a serviço da sustentação de um mundo onde esse tipo de confisco pode acontecer. (Na realidade, o que deixam para o Estado espoliador não passa da carcaça de empresas e empreendimentos cuja alma eles levaram consigo. A carcaça logo começa a deteriorar e a feder.)

CAOS

A história narra nos mínimos detalhes o caos que resulta dessa inusitada greve em que aqueles que normalmente são vítimas das greves, os empreendedores, retiram do mercado a sua mente e o seu trabalho, e, no processo, deixam o mundo sem esses bens, sem esses seus serviços, e, consequentemente, sem empregos. Quando Atlas faz greve, o mundo literalmente desmorona (mais ou menos como aconteceu com o mundo comunista em 1989) e, finalmente, pára. Entra em colapso.

Ao final da história, quando as luzes do velho mundo (literalmente) se apagam, em um apagão gigante da Costa Leste dos EUA, que simboliza a derrocada que lhe sobrevém quando Atlas deixa de sustentar o mundo, a porta está aberta para a construção de um mundo novo: a greve termina e Atlas está pronto para reassumir seu lugar.

EDUARDO CHAVES foi professor titular de filosofia na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e, depois de sua aposentadoria, em 2007, leciona filosofia da educação até hoje [9.10.2010] no Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL).

LIVRO: A Revolta de Atlas

AUTORA: Ayn Rand

TRADUÇÃO: Paulo Henriques Britto

EDITORA: Sextante

QUANTO? R$ 69,90 (1.232 págs.)

Em São Paulo, 9 de Outubro de 2010” [6]

O Brasil, hoje, se encontra em situação semelhante àquela em que estavam os Estados Unidos na história narrada pelo livro. Temos um presidente literalmente heróico, acompanhado de várias pessoas extremamente competentes, mas o país está nas mãos de um bando de ministros desmiolados na nossa Suprema Corte, de políticos sem visão e de uma mídia imoral. O primeiro turno das eleições mostrou que o Congresso  foi mudado significativamente. Mas isso, por si só, não é suficiente. No segundo turno da eleição presidencial – eu tenho dificuldade de acreditar nisso – tem chances de, com todas as falcatruas que vêm sendo perpetradas pelo STF e pelo TSE, hoje controlados pelo mesmo imbecil, voltar ao poder O ATRASO, A CORRUPÇÃO, A ROUBALHEIRA, A VISÃO SOCIALISTA DE MUNDO.

Amanhã temos uma última chance de resistir e não deixar que isso aconteça. Se as forças do atraso, da corrupção e da roubalheira, ganharem, que Deus nos poupe, como disse Patrick Henry, podemos entrar em guerra, como as colônias americanas da Inglaterra entraram em 1776, um ano depois do discurso de Patrick Henry. Ou, os que não compactuam, podemos fazer greve: sumir e deixar que o Brasil apodreça.

Em 29 de Outubro de 2022.


[1] https://en.wikipedia.org/wiki/Atlas_Shrugged.

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Atlas_Shrugged.

[3] https://en.wikipedia.org/wiki/Ayn_Rand; https://pt.wikipedia.org/wiki/Ayn_Rand.

[4] Eu trabalhava, na ocasião, no Departamento de Filosofia do Pomona College, situado (a despeito do nome) em Claremont, CA, que é um pedaço da Nova Inglaterra no Sul da California. Quem me indicou e recomendou o livro foi meu colega, especializado em Ética e Filosofia Política (a minha área era Metafísica, Epistemologia e Filosofia da Religião), J. Charles King, mais tarde, se tornou presidente do Liberty Fund. Mais para o fim da vida, Charles, que era agnóstico ou ateu (os limites são fluidos, de vez em quando) se converteu à Igreja Anglicana e se tornou sacerdote. Ele, nascido em 1940, faleceu em 2019, dias antes de completar 79 anos. Vide seu interessante obituário em https://flannerbuchanan.com/obits/j-charles-king/. Sou para sempre devedor a ele pelo conselho que me deu de ler Ayn Rand, começando com Atlas Shrugged. Ele me disse, na ocasião, que, depois de ler essa livro, eu não iria sossegar enquanto não lesse tudo que Ayn Rand havia escrito. Na ocasião, ela ainda estava viva.

[5] Vide o texto complete do discurso em:
https://avalon.law.yale.edu/18th_century/patrick.asp. [Tradução minha.]

[6] Cp. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me0910201005.htm. Fiz pequenas modificações de redação, sem alterar o sentido. Eu trabalhei no UNISAL, depois de aposentado da UNICAMP, até 2017. De 2014 a 2017 também trabalhei como Professor de História da Igreja e do Pensamento Cristão na Faculdade de Teologia da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (FATIPI), em São Paulo.

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